O desânimo bateu lá pelo quarto mês de quarentena. Agora, às vésperas do início do 11º mês sitiada pelo coronavírus e com a compreensão de que o “novo normal” não vai chegar, retomo o fio da meada por aqui

Image for post
Image for post
Apesar de ter sido publicado pela primeira vez em 1993, A Parábola do Semeador foi o livro para ler em 2020

Confesso que, lá pelo meio do ano passado, bateu um desânimo tão grande que não tive mais vontade de escrever. Parecia que tudo que poderia ser dito já estava sendo dito por outras pessoas. Foi só perto do réveillon que compreendi que não escrevo para dizer “o que precisa ser dito”, mas para me comunicar com outras pessoas e dar sentido ao mundo. Quem sabe não damos, juntes, algum sentido ao que estamos vivendo? …


Após mais de dois meses fechada dentro de casa e 20 dias sem vontade de postar coisa alguma, volto para relatar os não acontecimentos da quarentena

No pintura, exército cristão ataca Lisboa sob olhares de dois santos. Dentro da muralha há bandeiras com o crescente islâmico
No pintura, exército cristão ataca Lisboa sob olhares de dois santos. Dentro da muralha há bandeiras com o crescente islâmico
“Conquista de Lisboa aos mouros sob o patrocínio de São Crispim e São Crispiniano”: a representação do anônimo pintor do século 17 tem a mais a ver com as referências e imaginário do tempo dele do que com o que foi realmente o cerco de 1147. Fonte: acervo online do Museu de Lisboa.

Demorei mais de 60 dias, mas finalmente consegui terminar o livro que peguei para ler no comecinho da quarentena. Não poderia ter escolhido um título mais adequado para me acompanhar nessa sucessão de dias todos iguais, preenchidos por tarefas cotidianas repetitivas, com muito pouco de aventura. As exceções, vocês sabem, são as invenções gastronômicas, que dominam o topo da lista de coisas aventureiras que alguém pode fazer dentro de casa.

Minha companhia literária dos últimos dois meses foi um livro que estava na minha estante há exatos 17 anos: a História do Cerco de Lisboa, de José Saramago. Desde que peguei o livro nas mãos pela primeira vez (sem nem juntar vergonha na cara para pelo menos tirá-lo do plástico), muitas coisas aconteceram. Fiz faculdade, adotei uma profissão, conheci pessoas, visitei lugares. A estante de livros mudou de formato e endereço algumas vezes. Trintei, depois o próprio livro também — a primeira edição foi publicada em 1989. Já se vão aí dez anos desde que Saramago faleceu e o livro continuava pegando poeira. …


Depois de semanas de queda na adesão à quarentena, uma pergunta insiste em se insinuar. Será que a situação da epidemia vai piorar nos próximos dias?

Rua em São Paulo com pessoas na calçada e fila de carros esperando o sinal verde. Exceto pelas máscaras, parece um dia normal
Rua em São Paulo com pessoas na calçada e fila de carros esperando o sinal verde. Exceto pelas máscaras, parece um dia normal
A adesão ao autoisolamento está caindo em São Paulo pelo menos desde a volta do feriado de Páscoa. E em breve, para andar na rua, será obrigatório o uso de máscaras. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil, via Fotos Públicas

Parei de contar há quantos dias estou em casa. Muitos amigos dizem que pararam também de acompanhar o noticiário. Por aqui, continuo trabalhando com o canal de notícias ligado do meu lado. São ossos do ofício, não há como evitar. Às vezes, as notícias nem parecem novidades; são mais como resultados há muito anunciados de um acontecimento que vem se desenrolando lentamente. Creio que uma epidemia é exatamente isso: um acontecimento que não acontece de uma vez. …


Alguém escreveu que a quarentena é como um dia da marmota muito longo. Mas não é todo dia que você volta do supermercado com medo de adoecer.

Image for post
Image for post
Após um mês trancafiada, o carrinho do supermercado parece trazer mais aventura que uma nau portuguesa

Completei um mês em casa no meio do feriado e, depois de uns dias de descanso, retomei a rotina do home office com notícias de relaxamento das medidas de distanciamento social em várias cidades brasileiras. Em Florianópolis, até o comércio de rua voltou a abrir nesta semana. …


Hoje faz uma semana que escrevi o post anterior. A frequência de escritos diminuiu, mas não minguou: enquanto houver quarentena, haverá também essa série.

Image for post
Image for post
Na guerra das playlists, ganha quem fizer mais barulho?

Logo no começo das medidas de distanciamento social, nos idos da primeira metade de março, ficamos sabendo de várias vizinhas e vizinhos firmeza nos bairros mais variados. Eles espalharam papeizinhos para dizer aos idosos que não precisavam ir pra rua correr o risco de pegar covid-19; nós que somos jovens estamos aí para ir por vocês à farmácia, ao mercado, aonde mais vocês precisarem. Foi muito legal ver o melhor da natureza humana aflorando nesses momentos de tensão. …


O centro de monitoramento que a Universidade Johns Hopkins, nos EUA, montou para acompanhar a covid-19 no mundo já conta mais de um milhão de casos confirmados da doença. Lá fora, os números crescem. Aqui dentro, hoje vamos tentar desopilar um pouco.

Uma mulher está sentada no chão, amarrando o tênis antes do exercício físico. Ela veste uma calça legging e um moletom.
Uma mulher está sentada no chão, amarrando o tênis antes do exercício físico. Ela veste uma calça legging e um moletom.
Já tirou seu tênis do armário nessa quarentena? (Foto: Pixabay)

Comentei no post passado desses Diários do isolamento que estou testando alguns aplicativos de yoga. Para ser sincera, ainda não treinei o suficiente para realmente juntar algum material para uma resenha. E, desde então, já baixei mais uns dois aplicativos de tai chi chuan e outros três de treinos patrocinados por marcas de artigos esportivos. …


Trilha sonora deste post: as intermináveis duas horas de Jornal Nacional desta quarta-feira, 25

Image for post
Image for post
Trabalhadores da saúde deixaram a província de Hubei depois de meses de trabalho reforçando o sistema de saúde da região. (Não pedi permissão para usar, mas a foto é da Xinhua).

Enquanto a Índia entra no confinamento, a província de Hubei, na China, sai. Hoje, pela primeira vez em dois meses, Hubei se reconectou com o resto da China e seus mais de 50 milhões de habitantes receberam autorização para, finalmente, sair de dentro de casa. Ainda não é todo mundo que poderá sair, mas deve ser um baita alívio ter no horizonte que vai acontecer. Até 8 de abril, mais restrições serão eliminadas.

É verdade que como encerrar as medidas de distanciamento social é algo que continua a preocupar os cientistas e autoridades de saúde. Se for cedo ou repentino demais, o relaxamento dessas medidas pode resultar em um segundo pico da doença em lugares que já a tinham controlado. Esse risco foi, inclusive, o principal tema da coletiva da Organização Mundial de Saúde nesta quarta-feira. …


Depois de uma pausa de alguns dias, volto às anotações diárias durante o período de distanciamento social a que o coronavírus nos submete. Vamos manter a conversa rolando por aqui?

Partículas do vírus SARS-CoV-2 estão identificadas em amarelo sobre um fundo azul. São redondas e têm “tufos” na membrana.
Partículas do vírus SARS-CoV-2 estão identificadas em amarelo sobre um fundo azul. São redondas e têm “tufos” na membrana.
Microscopia de partículas do SARS-CoV-2. Foto: NIAID

A quarentena começou oficialmente no estado de São Paulo nessa terça-feira, 24 de março. Mas no centro da capital a sensação de quarentena já estava no ar dias antes. Como no sábado de manhã, quando passei pela Santa Efigênia completamente fechada e a Praça da República vazia.

Um tanto estranho passar pelas ruas esvaziadas e desanimador pensar que a paisagem provavelmente permanecerá desta forma pelos próximos meses. Talvez até mais; os documentos científicos que estão embasando as decisões do governo britânico, por exemplo, chegam a citar a necessidade de manter medidas mais ou menos rígidas de distanciamento por quase um ano. Tudo para evitar que a covid-19 tome de assalto o sistema de saúde, inviabilizando não só o tratamento dos pacientes infectados com o SARS-CoV-2, como também qualquer outra pessoa que precise de atendimento médico de urgência. …


Interior de um  vagão vazio do metrô de São Paulo. Os assentos estão distribuídos em grupos de três, próximos às janelas.
Interior de um  vagão vazio do metrô de São Paulo. Os assentos estão distribuídos em grupos de três, próximos às janelas.
Metrô de São Paulo foi palco de cenas de intolerância contra trabalhadores que estão na linha de frente da guerra contra a covid-19. Foto: Hugo Chinaglia/Flickr/CC BY-NC 2.0

São Paulo é uma cidade triste. Não bastasse a ansiedade que a pandemia de covid-19 causa em todos nós, há ainda quem descarregue a própria angústia em cima das pessoas que estão todas os dias na linha de frente da batalha contra o coronavírus.

Dois profissionais de enfermagem relataram à BBC News Brasil que foram alvo de preconceito e agressões no transporte coletivo nesta semana. Com medo de pegar o vírus, os outros passageiros trataram os trabalhadores da saúde como vilões. …


Enquanto a pandemia do novo coronavírus continuar se espalhando pelo mundo, postarei aqui no Medium algumas anotações diárias para manter a rotina — e estimular um pouco de conversa — durante o período de distanciamento social.

Partículas do vírus SARS-CoV-2 estão identificadas na cor verde. Elas são redondas e têm “tufos” cobrindo a membrana externa.
Partículas do vírus SARS-CoV-2 estão identificadas na cor verde. Elas são redondas e têm “tufos” cobrindo a membrana externa.
Microscopia de partículas do SARS-CoV-2 isoladas de um paciente. Foto: NIAID/NIH

Hoje, 19 de março de 2020, começou oficialmente o meu período de home office. Disseram-me uma vez que o primeiro passo para organizar a cabeça é organizar o seu espaço físico. No caso, o meu espaço de trabalho precisou de muita arrumação. E me deixou curiosa: será que a ciência identifica alguma relação entre bagunça, produtividade e bem-estar?

Usei os termos “clutter” (“desordem”, em inglês) e “psychology” para buscar no Google Scholar alguma resposta à minha pergunta. Clutter, na psicologia, significa acumulação de itens materiais. Não é exatamente a mesma coisa que hoarding, que tem sido descrito como um verdadeiro distúrbio. Mas os dois conceitos estão conectados: uma pessoa que tem um distúrbio de acumulação material tem também um problema com clutter. Para distinguir uma coisa da outra, vou me referir à acumulação como distúrbio e à bagunça como sintoma. …

About

Silvana Salles

Uma jornalista que estudou história e ciência política. Gosta de falar sobre livros e participação política.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store